Covilhã recupera tradições de quando era capital do chá

É conhecida como a “Manchester dos lanifícios”. O que explica alguma coisa nesta história. A Covilhã está cheia de “chazistas”, apreciadores de chá que ganharam o gosto no apogeu dos lanifícios com a vinda dos ingleses para o sector. Outros tempos, que a autarquia quer reavivar com chá oferecido à porta das lojas e chás dançantes para idosos.

"Seja covilhanense, beba chá!", lê-se nas ruas. Mas comecemos pelo princípio.

O uso do chá na Inglaterra é atribuído a Catarina de Bragança, princesa portuguesa que casou com Carlos II de Inglaterra em 1660. Catarina organizava "tea parties", nas quais o chá passou a ser apreciado pelas mulheres e a ser também do gosto masculino.

O hábito do chá foi introduzido na Covilhã nos séculos XVIII e XIX, período em que os ingleses visitavam as fábricas de lanifícios para importar os lanifícios da região.

Agora, a autarquia da Covilhã quer reavivar a tradição. Forneceu copinhos de chá aos comerciantes para que os possam distribuir pelos clientes e colocou o chá onde ele pertence: no chá dançante. O objectivo da iniciativa, que dura há oito anos, é evitar o isolamento dos idosos.

No Centro de Actividades da Covilhã, espaço dinamizado pela autarquia, há salas de leitura, ateliês de bordados, mas a actividade que conquista mais gente acontece às quartas-feiras, durante duas horas.

A pista enche-se de dançarinos de outra época que alinham no som que DJ Fabrice passa. “Vou pôr um quizomba para dançarem agarradinhos”, sorri. No entanto, agradar aos idosos do Centro de Actividades da Covilhã não é uma tarefa fácil. “É exigente. Cada um tem a sua vontade, é complicado agradar a todos.”

Todas as quartas-feiras, Olinda Caninhas de 68 anos, reserva duas horas para o chá dançante. “É uma boa iniciativa para sairmos de casa. Estamos acompanhados, evitamos estar o dia inteiro a olhar para as paredes”, diz, enquanto se aproxima do par.

Depois da dança, há uma pausa merecida para um chá. É uma tradição da Covilhã, confirmam Alexandre Farias, de 76 anos, e Lucinda Peixoto, de 73.

Lucinda, que começou a trabalhar aos 14 anos, diz: “É uma tradição de quando eu era pequena. Levávamos o chá nos termos para a fábrica”.

Também Alexandre se lembra dos tempos em que a Covilhã era a capital do chá: “Era como se fosse a sopa do dia. Os ingleses, quando vinham a Portugal, perguntavam onde era a Serra da Estrela e vinham de propósito à Covilhã para fazerem negócios e apreciar o chá – chá preto e o gorreana, sobretudo”.